Curando a ressaca

Embriaguez, maré e Capitu

Lá vem

Lá vem com seus tentáculos, o homem tirano
Amaciando o povo a golpes e porrete
Privando de letras seu novo gado humano
Que submisso há de servir-lhe o banquete.

Eis que entre as paredes da cidade velha
Insurge, insolente e feroz a nobre luta
Muro concreto, solo de pedra, céu de telha
Entre tantos e poucos nova voz se escuta.

Chuva ácida não apaga o fogo de seus cabelos
Bombas de gás não turvam a clareza de seus olhos
E ainda que sob salva de borracha, o pé não arreda.

Frusta ao tirano, a derrota da violência
Ao ensinar-se entre essas paredes a sapiência
Da utopia que permeia a realidade entorpecida.

Lucas

Menos

Destituído de lógica, o mundo gira
Subtrai-se sem escusa do já subtraído
Apoiados em fracos ombros da lei, mentira
Passa inútil o dia, o saldo ainda negativo

A imagem no espelho segue o mesmo sentido
Insensível ao momento surrupiado
Foge do pensamento o motivo, é olvido
Entra-lhe e sai pelo ouvido, anestesiado

Escrevem-se cartas, assinam-se petições
Somadas ao mofo da pilha de ações
Que a nenhuma ação, de fato, traz

O subtraído, negativado, desanda
A imagem, alheia, ainda anda
No mesmo sentido de sempre: Para trás.

Lucas

Todo

Quem há de avistar o todo
Que há adiante do fundo muro?
Emoldura a finda vista, sólido
Retém os finos cachos de um sol louro

Quem há de derruba-lo sem pena?
Com tinta e pena, cada tijolo, açoita
Esmurra o estorvo com palavra obscena
Manchados ao chão restam, pó e brita

Quem há de dar um passo à frente?
Escombros aos pés e o todo aos olhos rente
Toca-lo inteiro com a mão nua, dislumbrada

Quem há de desmembrar o absurdo
Silencioso, ouvir a sinfonia de um surdo
E descobrir apenas a imensidão do nada?

Lucas

Bzz!

Oito horas da noite. Um dia daqueles. Trabalho, trabalho, trabalho. Trânsito. Calor que exala do escapamento dos carros. Chego em casa, exausto. Sigo minha rotina. Tiro os sapatos que já me fazem calos. Afrouxo o nó da gravata que me aperta a garganta. Solto o cinto que esmaga minha pança de cerveja. É assim que a noite está hoje, era assim que a noite estava ontem, rotineiramente. Amanhã também? Não sei. Apenas o hoje importa. Mesmo? Banho quente tomado, lasanha congelada já em digestão. Dentes escovados. O mesmo de filme de ontem, ainda não assistido. Amanhã assistirei até o fim? Acho que não. Atirado na cama, escondido pelas cobertas. Um frio nos pés lembra-me que é inverno la fora. Um mosquito me lembra que é o inferno aqui dentro. Eu disse mosquito? Bzz! Bzz! Esse mesmo mosquito de ontem, o mesmo mosquito de sempre. Penetra a fortaleza de panos em que me cubro e faz questão de lembrar que ainda está aqui.

Gostaria de dormir, mas… Bzz! Oras, poupe-me! Pousa o mosquito, sórdido, na ponta do meu nariz. Afasto. Pousa-me no dedão do pé. Afasto. Pousa-me na batata da perna. Afasto. Palmas! Bzz! Palmas! O mosquito desvia. E desvia. E desvia. E eu não vejo. Rá! Um espetáculo! E o palhaço sou eu. Gostaria de suplica-lo um pouco de silêncio, rezar ao santo inseticida há um ano vencido, ou ainda, um brinde, uma dose de arsênico. Ou morre você ou morro eu! Touché! Mas não. Bzz! Incessante? Seguem-se os pousos e a enérgica salva de palmas. Ouço o que me parece o som do silêncio. O maldito cansou? O maldito morreu? Onde está o zumbido? Bzz! Em uma mão o chinelo, em outra, um copo de requeijão. Reduzo-me ao linguajar obsceno e monossilábico de um mosquito. Bzz… Bzz! Bzz? Ele não ouve, ele não se importa.

Poderia ser um pato, poderia dar zebra, poderia pagar um mico, mas por que raios habita aqui um maldito mosquito? Esconde-se atrás das cortinas que cobrem janelas ausentes de raios de sol, faz companhia à sujeira que joguei embaixo do tapete naquela faxina que ainda não fiz. Espreita nos lençois que cobrem meu corpo frio e encobrem as provas de um constante fracasso. Exausto, fecho os olhos, pronto para sonhar com a coceira do dia seguinte.

Bzz! Pousa em meu ouvido e, desde então, aqui dentro, habita.

Lucas Copags

Pencimento

Pencimento

Morta e mentirosa mente,
Imutável e duro cimento
Ignora o novo e diferente
Posto, pedra, o pencimento

Reboca, inútil, sentimento
No fundo da garrafa, inunda
Engarrafado, arrasta, pavimento
Apartamento, chega, se afunda

Ouve a verdade, sem entendimento
Balbucia mentiras, “não entendo!”
Irreparáveis danos com a boca, cria

Preso pelos pés no duro pencimento
Há de voar no derradeiro momento
Pelos finos poros da terra fria

 

Lucas

Ido

Ido

Já esperei a fila pro avião (e voei)
Me enfilerei num trem (me apertei)

Rolei ladeira abaixo (me machuquei)
Paguei um táxi (muito paguei)

Subi num ônibus (me atrasei)
Hoje dirijo eu mesmo (ainda não cheguei)

Não faço mais parte de cada lugar
Ficaram pra trás com a fumaça

que saem pelo escape enferrujado
Escapo de onde não há mais permanência

Mas carrego em mim um pouco de tudo,
Lembranças e souvenirs de onde passei

Olho no retrovisor e não lembro de onde parti
Mas lembro muito bem do caminho

E num dia desses, por exemplo,
Passei por uma cidade muito importante

pra mim e possivelmente pra um ou outro mais
Gostava daquela paz, do bar do zé, do pãozinho

da estadia naquela típica tarde de domingo
Não havia chuva ou sol, havia paz

Era uma boa cidade, uma boa cidade
Mas o pãozinho ficou caro pra danar

O bar do zé ja não servia aquela gelada
e o domingo a tarde virou segunda de manhã

Ainda adorava aquela cidade, importante cidade
Mas naquela última manhã de sol não havia paz, só chuva.

Embalo a nova bagagem
como um outro souvenir

Faço a única mala
como quem já sabe

Despeço o último dia
Como cumprimentei o primeiro

Deixo a importante cidade
Como a quem não pertence

Volto à infinita estrada
Como seguindo em frente

A cidade adorada, não vejo
E vejo menos ainda o que há a frente

Descerei em outras importantes cidades
E, com sorte, em uma farei casa

Aleatório, escondido pelo horizonte
Quieto, aguarda ali o destino

Que ao fim não é nada além
do que o ponto final da viagem

Lucas

Bem te vi, bem-te-vi

É manhã, ouço teu canto esvoaçante
De um canto um tanto distante
E ao pequeno pássaro, a desvendar parti
Quando bem te vi, Bem-te-vi

La no alto surfa pelas nuvens
E atraído pelo brilho de mil lúmens
Pra descer da intocável distância, te pedi
Agora, bem te vejo, Bem-te-vi

Escolhe-te uma árvore de teu agrado
pra gente cantar aquele papo despojado
Bem te verei, bem-te-vi, dê trela

Tanto canto, tanta beleza, abrilhanta
Pequeno pássaro, muito me encanta
Bem te vi, prazer em conhece-la

 
Lucas

Completamente imperfeitas

Pessoas completas me inspiram. Veja bem, digo completas, não perfeitas. Pessoas perfeitas não existem, não existem. Se existem devem ser meio que sem graça, devem não ser humanas, intangíveis ou algo assim. Pessoas imperfeitas estão ai, sou eu, é você, é o outro ali. E essas pessoas erram a todo momento e sabem que erram. E dão com a cara no muro, se deparam com barreiras e tropeçam nas pedras no caminho diariamente. Mas um dia muros se quebram, barreiras são transpassadas e as pedras viram alicerce.

Inspiram-me as pessoas que vivem tudo isso mas sabem como sorrir e fazer sorrir. Sabem chorar e sabem secar lágrimas. Que choram de rir. Que passam raiva durante todo o dia com o trânsito intransponível, com o telefone que não para de tocar, com o salário que não dá, com a burocracia, mas que ao final do dia ainda sabe falar de amor. E sabe que amar completamente alguém não significa ausência de amor próprio. Que valoriza o amor do outro. Mas também que sofrem com o adeus. E no fim vão ficar bem pois esse mesmo amor próprio

Como são belas as pessoas que caem mas que aprendem a levantar. E que sabendo como o faz, estendem a mão para levantar seus semelhantes. Como são belas as pessoas que são uma pequena lanterna no escuro fundo do poço do mundo.E são sujeitas aos eventos aleatórios a todo momento, em qualquer lugar. Sujeitas a se esbarrar na rua ou a nunca se encontrar. Sujeitas a se apaixonar de supetão ou morrer de tropeço. Sujeitas a ganhar o mundo ou perder a si mesma.

Ainda que percam partes de si por aí,  permanecem completas .Pois cheias de sentidos e sentimentos, essas pessoas imperfeitas,  transbordam.

 

 

Lucas

Cômodos

Cômodos

 


 

Somos bilhões de pessoas, mentes, corações. Nascemos, morremos, matamos. Somos frutos da ação ou da falta de ação de cada ser que pisou nesse planeta, humano ou não. frutos de cada nascimento, de cada assassinato não premeditado, de cada governo caído. Frutos de amores de morrer e de corações partidos. E agora temos uma vida pra viver, uma vida só nossa.

Temos um pequeno, seguro lar dentro de nós, com quentes varandas iluminadas e frios quartinhos escuros com seus móveis empoeirados. E a cada dia estamos em algum cômodo diferente dessa casa de nós mesmos. As vezes a fraqueza é tanta que deitar na poeira do quartinho é mais cômodo do que abrir a janela da varanda. Mas um dia a gente levanta e abre a janela e vê que ali em frente da sua casa há uma janela de uma casa que você nunca havia visto porque não conseguia sair do seu quartinho empoeirado.

E nessa casa vizinha, mora um vizinho que também abriu a janela. E a luz entra, o calor entra e não queremos mais voltar pra poeira do cantinho escuro. E amamos, juntamos nossas casas e deixamos os quartinhos frios bem trancados. E pra que? Uma casa é grande demais para a solidão mas juntas são perfeitas para o amor. E vai acontecer do vizinho querer se mudar e ele vai.

E a casa voltará a ser grande pra você, você vai voltar pro quartinho escuro, frio e empoeirado mas quando sair, verá uma nova janela, uma nova casa, um novo vizinho. E você não vai saber quem é, nem de onde veio, nem saberá quando. Não vai sequer esperar. Mas estará lá.

Enquanto isso as pessoas nascem, morrem e matam. Assassinatos ocorrem e governos caem. E de tudo isso, bilhões de pessoas serão fruto.


 

Que mundo?

Que mundo é esse? Que mundo é esse em que vivemos? Esse mundo em que a tal “espécie dominante” destrói pouco a pouco a sua casa, seus semelhantes. Onde a fartura no bolso de um justifica a miséria de muitos e o banquete de meia dúzia justifica a fome de milhares. Onde pra alguns mármore, outros papelão. Onde pra alguns piscina, outros sede. Onde pra alguns SPA, outros chibata. Onde não há dinheiro suficiente para salvar a todos mas gasta-se fortunas em destruição e morte em prol do lucro de poucos e da falsa glória dos falsos vitoriosos. Onde o espaço é de sobra mas os desabrigados não o tem como direito. Esse mundo em que se exalta o excesso e esconde-se a falta. Em que a construção de grandes templos para a manutenção do nosso circo de cada dia é mais importante que os Joãos e as Marias aguardando a morte, tossindo nas filas dos hospitais. Onde o medo do escuro sonega nosso direito de ir e vir. Onde numa democracia elegem-se mais reis e marajás do que a monarquia jamais sonhara. Onde mata-se pela crença em um deus ou pela negação dele. Onde é descriminado o amor de alguns, o duplo cromossomo x, a melanina. Onde na corrida, a maioria sempre larga na frente dos que não têm pernas. Onde o espécime 46 cromossomos não tem a capacidade de ver a capacidade do de 47 cromossomos. Onde o conhecimento é um fardo e a ignorância uma benção. Ignorando a aceitação desse mundo de poucos, carrego o fardo de uma utopia qualquer.

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